ala mar: Raul Mourão e Rick Rodrigues

ala mar propõe a ocupação das áreas externas do Cais das Artes por meio de instalações, esculturas e ações educativas ao ar livre. Com curadoria de Clara Sampaio, reúne obras comissionadas e projetos itinerantes de arte contemporânea, buscando ativar relações entre arte, arquitetura e paisagem, transformando diferentes áreas do complexo em lugares de convivência, contemplação e pensamento crítico.

Para que o exterior opere em continuidade às salas expositivas do Cais das Artes, propomos vivê-lo como imaginou o arquiteto Paulo Mendes da Rocha: integralmente, como construto e como entorno, paisagem que adentra o edifício, edifício que se converte em paisagem. Trata-se de compreender o Cais como território contínuo, onde a experiência estética se constrói tanto no interior quanto no exterior, dissolvendo fronteiras entre obra, arquitetura e cidade.

Esse primeiro momento do programa aborda duas escalas do habitar em sociedade, ambas fundamentais para a existência humana: a do microcosmo doméstico, abrigo, refúgio e espaço primordial de aprendizado; e a do macrocosmo coletivo — povoado, aldeia ou cidade —, instâncias que estruturam a experiência social. Com suas particularidades e desafios, ambas se implicam, se contêm e se prolongam mutuamente.

É a partir desse movimento de ativação dos espaços que situamos o papel do trabalho artístico, pois nos parece cada vez mais urgente repensar seu lugar na sociedade. Em um tempo de fricções constantes e esgotamentos naturais, minerais e humanos, interessa vivenciar a arte não como antídoto ou resposta “imunológica”, como propõe Byung-Chul Han (2010) (1), mas como desvio, como abertura para outras formas de experiência e para caminhos ainda por percorrer. Entendemos que ações inerentes à prática artística — investigar, experimentar, criar, apresentar e dialogar — constituem os eixos de uma atividade que oxigena, tensiona, liberta e amplia nossos modos de perceber, imaginar e habitar o mundo.

Cuidar do tempo da criação é também cuidar do tempo da atenção e da contemplação. Longe de serem ações passivas, essas experiências constituem um trabalho do pensamento: entrelaçam memórias, convocam imaginários e conjuram mundos. Nelas reside a possibilidade de interromper o fluxo acelerado da vida cotidiana para restituir espessura à experiência, tornando visíveis relações, saberes e sensibilidades que frequentemente permanecem à margem.

A prática artística pode ser situada nesse lugar meio mágico, meio alquímico, capaz de operar transmutações da matéria, dotar objetos de uso corrente de novos significados e nutrir-se das práticas que atravessam tanto o ambiente doméstico quanto as diversas formas da vida coletiva. É nesse horizonte que se inserem as obras aqui apresentadas, ativando diferentes camadas da memória e da experiência e criando condições para que elas continuem a ser compartilhadas e transformadas.

Raul Mourão investiga o tecido urbano e suas arestas, em que o jogo social — negociação, tensão, consenso e dissenso — está em pleno acontecimento. Observa as estruturas arquitetônicas que povoam a cidade, sinalizando seu funcionamento e colapso, para ensaiar novos arranjos e deslocamentos, sobretudo na forma de esculturas. Situando-se entre o peso da matéria e sua capacidade de movimento, essas estruturas desafiam a impressão inicial de dureza e estagnação para se converterem em elementos que bailam na paisagem. Vazadas, deixam-se atravessar pela arquitetura e pelo mar, instaurando uma relação dinâmica com o entorno, ao mesmo tempo que criam sua própria espacialidade. Vingam aqui como uma “bruta flor do querer” (2) que irrompe em pleno concreto, atenta, insistente e desejante.

Numa outra esfera do desejo, o trabalho de Rick Rodrigues volta-se ao universo do lar, revelando suas miudezas. Recupera uma atenção próxima à da infância, quando cores, texturas, objetos, conversas e gestos cotidianos atiçavam a curiosidade e educavam o olhar. Em sua prática, elementos como a cama, o travesseiro e o próprio desenho da casa aparecem de forma recorrente. Entre representação e ação, o artista mobiliza o bordado como linguagem, afirmando o valor de saberes historicamente associados à esfera íntima e ao feminino. Nesse fazer atento, condensam-se formas de transmissão de conhecimento que atravessam gerações e configuram modos de aprender, lembrar e estar junto. Ao deslocar essas práticas para o espaço do Cais, o trabalho ganha escala e abre-se à criação coletiva, deslocando a centralidade da autoria e revelando o potencial emancipador da arte e dos fazeres artesanais.

Ao se ativarem as áreas externas do Cais das Artes, propõe-se ao público não apenas ver, mas estar, circular, demorar e participar. Abre-se um espaço de encontro, permitindo que a arte opere como prática situada, capaz de instaurar — e restaurar — formas de atenção, convívio e presença no mundo.

  1. BYUNG-CHUL HAN. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Editora Vozes, 2010. (Trad. Enio Paulo Giachini)
  2. VELOSO, Caetano. “O Quereres”. In: Uns, 1984.

Sobre o artista Raul Mourão

Raul Mourão (1967, Rio de Janeiro) desenvolve, há mais de três décadas, uma pesquisa que atravessa desenho, fotografia, vídeo, escultura, instalação e performance. Partindo do espaço urbano, investiga estruturas de contenção, instabilidade, movimento e resistência, elaborando uma linguagem visual na qual forma e experiência se articulam de maneira inseparável. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

Sobre o artista Rick Rodrigues

Rick Rodrigues (1988, João Neiva, ES) é artista multidisciplinar, graduado em Artes Plásticas e mestre em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Sua pesquisa explora o imaginário poético da casa como espaço de intimidade, abrigo e habitação, desdobrando-se em desenhos, gravuras, bordados, objetos e instalações que articulam memória, afetividade e cotidiano. Vive e trabalha em João Neiva, ES.

Ficha Técnica

COMPLEXO CULTURAL CAIS DAS ARTES

Coordenação-Geral

Alexandro Lima 

 

Coordenação Estratégica

Tatiana Mancebo 

 

Coordenação de Comunicação de Equipamentos Culturais 

Marcelo Henrique Andrade 

 

Coordenação de Educação de Equipamentos Culturais

Patrícia Marys

 

Gerente de Administração 

Matheus Lourenço 

 

Educador de Projetos 

Vinícius Barreto 

 

Supervisão de Operações

Theo Danilo Neves 

 

Núcleo de Curadoria 

Clara Sampaio

Marcelo Campos

Nicolas Soares 

 

Produção 

Camz Correa

Graziella Cruz

Thai Formentini

Vanessa Yee

 

Pessoas Educadoras Pesquisadoras

Aline Amaral

Carla Coutinho

Dimas De Sant’Anna

Erick Ferreira

Farley José

Gabriel Pontes

Gabriely Ferreira

Guilherme Brasil

Larissa Azevedo Silva

Lyssandra Lourenço

Matheus Barreto

Vitória Ramos

 

Identidade visual 

Werllen Castro

 

EXPOSIÇÃO

ala mar: Raul Mourão e Rick Rodrigues

01 de agosto a 01 de novembro de 2026

 

Curadoria 

Clara Sampaio

 

Produção 

AREA27

 

Direção de Produção 

Rodrigo Andrade

 

Produção Executiva 

Bernardo Novo

 

Produção Local 

Elaine Pinheiro 

 

Colaboração Curatorial Raul Mourão

Omar Salomão (Parque Cultural Casa do Governador)

 

Assistentes de artista Raul Mourão 

Ericsom Manoel

Rogério da Cunha

 

Produção Artística Rick Rodrigues

Danielle Nogueira

 

Assistentes de artista Rick Rodrigues

Helder Guastti

Rogéria Guastti

 

Projeto da instalação do artista Rick Rodrigues

Flora Gurgel

 

Engenheiro calculista

Wesley Ruan Bonfim

 

Execução e Montagem obra Rick Rodrigues

Composição Comunicação Visual

 

Identidade Visual 

Werllen Castro

 

Texto Curatorial

Clara Sampaio

 

Revisão de Textos 

Herbert Farias

 

Versão para o Espanhol

Patricio M. Trujillo O.

 

Versão para o Inglês 

Danuza Fonseca

Lobo Pasolini

 

Iluminação

Vitor Lorenção

 

Sinalização 

Composição Comunicação Visual

 

Transporte 

EFEG Cargas



LOGOS:

Realização 

Cais das Artes

 

Produção 

AREA27 

 

Gestão 

OEI | Governo do Estado do ES – Secretaria de Cultura